A Mulher no Esporte

Equipe colegial de Niterói, década de 40

A Mulher no Esporte        

Nas décadas de 40 e 50 o voleibol era praticado mais pelos homens, embora em alguns centros tivesse a pecha de ser praticado por muitos homossexuais. E, em alguns casos, por algumas mulheres chamadas de paraíbas[1]. Este estado de coisas permaneceu por muito tempo, mesmo no Estado do Rio de Janeiro, haja vista o caso de alguns atletas dito “assumidos” que sofriam discriminação em alguns clubes. Contudo, o tempo passou e muitos costumes foram mudando e se liberando. Quando uma moça se transferia para algum clube era necessário que os pais zelassem para que não fossem assediadas, não por homens, mas por jogadoras. Nesse sentido, havia uma rede de informações e intrigas. Aliás, isto não é característico somente daquele período, mas atinge até nossos dias, agora também no voleibol de praia. Desse período declarados eram somente Bené e Borboleta, reconhecidamente por todos como excelentes indivíduos e que nada deixavam a desejar no trato com os companheiros; eram transparentes seus trejeitos e falas. A este respeito a revista VEJA (ed.1992, ano 40, n° 3, de 24.01.2007) publicou em sua página de obituário: “O jogador de vôlei Luiz Cláudio Alves da Silva, o Lilico, um dos primeiros atletas brasileiros a se declarar homossexual. ‘Sou gay e jogo como homem’, dizia. Lilico chegou a atribuir o fato de não ter sido escalado para as Olimpíadas de 2000 à sua opção sexual. Depois, retratou-se. Dia 13, aos 30 anos, em consequência de um derrame, em São Paulo”.        

Retrocedendo no tempo, reportemo-nos ao início de novembro de 1951 e examinemos os comentários e impressões de Paulo Quintino dos Santos, no jornal O Estado de Minas, de Belo Horizonte (MG): “Nosso vôlei feminino já fez uma época, que Minas não seguiu: a época paraibana do volibol. Houve tempo em que o nosso volibol feminino era no Brasil uma força que espantava. Já fomos bicampeões. As moças de antigamente, sob as ordens de Silvio Razo, abriam no esporte brasileiro uma nova época de técnica na bola ao ar. Celia Federcini foi apelidada de Lelé, quando aquele futebolista lhe era um discípulo em seus petardos no futebol. Tivemos Pequenina Azevedo, hoje empolgando o esporte carioca no tênis, no vôlei e em outros esportes. Roma Zanzoni, maravilha de Uberaba, Ivone Gualberto, Maria José Passos, Julinha, de Uberlândia, enfim, algumas esportistas que deixaram insertas em nosso esporte páginas inesquecíveis. O Paissandu se superlotava em 46, nas noitadas do brasileiro de volibol ganho por nós. Era quando a época nos dava um lugar de destaque sem igual no esporte brasileiro. Por causa do nível técnico revolucionador de nossas moças, no domínio individual e na eficiência maravilhosa dos conjuntos cientificamente formados. Posso dizer que o nosso vôlei feminino fez uma época. Deixou aberto o caminho para o progresso de outros centros. Centros que antes aprenderam conosco e que hoje nos ensinam. Porque evoluíram e nós regredimos. Quando podíamos, mesmo perdendo as maravilhas de outrora, acompanhar o desenvolvimento do volibol, um esporte que no âmbito nacional experimentou incrível ascendência técnica, em quatro ou cinco anos de difusão. Não acompanhou, porém, o progresso de outros centros.         

O Progresso Que Não Sentimos. O troféu ‘Lira Filho’ que a cidade assistiu nesses últimos dias serve para mostrar outra vez que nós não procuramos seguir os passos do volibol feminino. Em São Paulo, no ano 48, começou a grande derrocada do volibol. No campeonato seguinte ao bi, lá perdemos a hegemonia e a crença em nossas moças. Nós, mineiros, porque sentia-se em São Paulo, em 48, que os outros centros progrediam e nós ficamos na mesma escola clássica dos primórdios do volibol brasileiro. Implantou-se definitivamente no vôlei, depois da queda das mineiras, em 48, a época paraibana. A escola clássica que nas montanhas formou six formidáveis não teve força para suportar a carga dos braços atleticamente desenvolvidos dos monstrinhos de São Paulo e do Rio. Se continuassem as clássicas propriamente ditas, com o mestre Silvio Razo, poderia ser que a frente fosse feita. Mas o afastamento das volistas de velha guarda acabou com o volibol de Minas. Pela razão simples de que a época paraibana não teve em Minas seguidoras. Nem poderia ter, porque praticamos no setor feminino, um esporte ainda por desenvolver-se.         

A escola clássica e seu fim em 46 e 48. Enquanto estava o vôlei nacional em seus primórdios técnicos, a classe e as figuras ímpares de atacantes que possuíamos, eram absolutas. Com a masculinização do vôlei feminino, nós aqui de Minas tínhamos mesmo de ficar atrás, sem desenvolver o intercâmbio, sem ter material humano de paraíba e técnicos do mesmo calor e fogo de Silvio Razo.         

De 48 até hoje. Depois que caímos em São Paulo, perdendo a hegemonia de dois anos, até hoje ficamos tão estacionários como os preços de passagens de bonde. Se progredirmos um tostão quase nada disso valeu, perto do rápido e sempre crescente progresso do vôlei paulista, carioca, gaúcho e mesmo fluminense. Houve mais aquela negra campanha de 49, no Brasileiro Extra de São Paulo, reprise do fracasso de 48, aumentada. Em 49, mais que em 48, começou-se viver o drama do nosso vôlei feminino. A perda da hegemonia em 48 poderia ter sido um fenômeno natural do esporte. Tinha-se pelo menos esta esperança. Mas o triste papel das moças de 49 exibiu que a queda teria influído enormemente até durante vários anos. Como, aliás, está sendo comprovado”. 

O texto foi mantido conforme publicado; a reportagem é seguida de foto da equipe feminina de voleibol do Botafogo que compareceu ao torneio em Minas com o subscrito: “Essas moças que jogam vôlei, basquete, lançam peso, saltam altura, correm nas raias etc., positivamente possuem mais credenciais que as humildes mineiras para aguentar e vencer uma luta de bola ao ar”.     

Equipe do C. R. Icaraí, com os destaques Adayr (2ª à esquerda) e Norma (6ª)

O Clube de Regatas Icaraí participou de um quadrangular neste ano, em Belo Horizonte, nos dias 2, 3 e 4 de novembro de 1951, contando também com as equipes do Botafogo, Pinheiros e Minas Tênis Clube, na disputa do troféu “João Lira Filho”: (…) Pelo Botafogo, irá Roma, também campeã sul-americana. Do Pinheiros, de São Paulo, destaque para Coca, considerada uma das melhores jogadoras de vôlei do país. (…) A equipe do Icaraí conta em suas fileiras com uma integrante do selecionado brasileiro que levantou o título máximo da América do Sul. Trata-se de Adayr, uma cortadora de reais predicados técnicos, além de Norma Vaz, ex-volista de Uberlândia, integrando a delegação do Icaraí.  (…) Os ingressos serão cobrados da seguinte maneira: cadeira de pista, Cr$ 50,00; cadeira de arquibancada, Cr$ 30,00; arquibancadas, Cr$ 10,00; senhoras, senhoritas e sócios do Minas, Cr$ 5,00.         

Outro destaque, agora de caráter tático, refere-se à reportagem extraída também do “Estado de Minas”, publicado em 7 de novembro daquele ano: “A equipe do Minas surpreendeu a todos aqueles que foram ao estádio da Feira. Com um quadro formado por cinco cortadoras, sendo que duas funcionavam como levantadoras, o clube de Santo Antônio soube tirar proveito desse fator em dois jogos”.         


[1] Popular; mulher macha, mulher macho; operário de construção civil, não qualificado.

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One Comment on "A Mulher no Esporte"

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